segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Plagiado

Criatura bizarra que mora no espelho
Onde você se esconde o dia inteiro?
Na garrafa do bar daquela rua
No cinzeiro, no isqueiro ou no cigarro?
No bigarro ou quando me agarro na privada do banheiro?
Não te vejo...
Mas eu sei que você sussurra me dizendo
Que posso voar
Te desejo e me convenço
Só percebendo nosso engano
Um segundo depois de pular
E no ar, nada mais nem além do aguardar o chão
Repensar a paixão, ruminar a dor
Com o poder de não ter como evitar a colisão
Talvez tenha optado pela fé, pois
Com religião ou não, ela se assemelha com um porre
Tanto no antes quanto no depois
Amarga ilusão á qual muitos de submetem
Consequências quase nunca se medem
Não estão organizadas numa fila por ordem de tamanho
Fecha os olhos, abre os braços e vai
Gozando e sorrindo até se dar conta de que cai
Aí, por mais que queira, não há nada á fazer
Deseja a morte por mais nada temer
A sua cabeça, sua culpa , sua sentença
Escolhida na hora da crença

domingo, 21 de outubro de 2007

Tô voltando pra casa


Não quero atenção

Que não me olhem porque estou num momento

Que nem sei

O que se vê nesse meu rosto?

O buraco dos olhos, a pupila pulsante,

Lubrificadora lágrima ou a laciva da insônia?

A boca portadora do sorriso, do grito, de nó

De vômito ou de cantarolar?

O nariz empinante estandarte do brio, do perfume excitante

Ou da corisa que o faz mirar o chão?

Ouvidos que ouvem ou ocos ouvidos de adorno?

Na testa, uma plaquinha que diz

Me mudei daqui.

E quando eu retornar a mim, quero fogos

Fogos de artifício explodindo nos meus orifícios

Essas beldades de cavidades que quero muito amar

Novamente

Haverá festa entre as minhas pernas, os joelhos comentam...

Quem sabe com um convidado especial

Que recepcione bem e que não se demore

Pois quem á casa retorna precisa aproveitar

Precisa redecorar.

sábado, 13 de outubro de 2007

Vitrolando The Cure

Nunca fui princesa
De toda brincadeira, fui fada
Fui cigana, boneca, borboleta
Nunca fui linda
De toda forma, sempre acanhada
Fui tímida, obscura, um pouco segura
Nunca fui pura
De quando em vez, esta pode ser considerada
minha atitude sincera... a de ser pensada
Nunca fui leve
De qualquer jeito, me deixei levar e foi
bom
E quanto aos amores, devo confessar que
Tomei e continuo tomando no cú
Digo sem mudar de tom, sem me exaltar ou
sem parecer jururu
Pois parece que, para alguns, amar é isso de tomar
no cú,
Engolir á seco, ficar rubra, mascar vários sentimentos
enquanto sorri
Depois, sentar pra escrever e produzir canções de samba,
jazz, rock e blues... outras mais
Produções mais centradas e mais carnavalescas
Saíram das mesmas situações que, mesmo parecendo um tanto
cabulosas, revelam novos prazeres
Que ,por sua vez, nos chegam de mãos dadas com estranhos quereres
Sobre os quais só ousará discutir
Quem se dispôs a sentir o amor
Mesmo sob sua forma mais animalesca
Tomar no cú dia após dia
Nem sempre se faz com alegria
Nem sempre se faz com pesar
Ás vezes, até se pode sentir a falta de tomar
e pastar... pastar... pastar
Ás vezes, fica alternativo demais e parece até mais legal
ser um tanto convencional
Acho que queria experimentar.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Em um cruzar de pernas


Hoje só posso citar Cobain
Na tentativa de te convencer
Diante da premissa de me satisfazer
"Rape me... rape me my friend. Rape me... rape me again!"
Vou frequentar a sua missa
E dizer-te um auto e sonoro amém
Porque quando de penso
Posso distrair-me com qualquer outro pensamento
Mas quando te sinto, em carne densa e viva
O que me distrai é a febre que me toma
E, em meu meio, se contrai a parte sensitiva
Frida sabia
Almodovár sabia
Dom Juan sabia
E até Zorro sabia
Que eu sucumbiria, se assim te sentia
Como um personagem de Gabriel Garcia
Nada posso contra que prazerosamente me estremesse
Um misto de agonia da tortura com tensa alegria
Desejo a cura e não estou certa de que a tomaria
Se pudesse

Pelas lentes fantásticas de Tunick

Que mais poderia eu, além de exibir,
Em minha carne crua, a fome
Que sinto pela sua
Perderei a vergonha na cara
E no resto
Quando vier ao meu encontro
Confesso
Sem prosa e sem verso
Só eu em você e você em mim
Nada generoso ou perverso
A realidade do cru
Sob a saboridade de nu
Agente sem cama e sem lençol
Expondo-se, feito cana sob o sol
Pedra, água, carne, erva
Se testando para saber o ponto
Que chegamos até que a alma se inerva
Que não nos seja estranho
As semelhanças com qualquer outro animal
Porém ressalva a diferença das coisas
Te gosto e te arranho
Me gosta e me arranha, de forma desigual
Vamos revelar nossa preferência
Por outros tipos de ilusão
Consideremos nossos corpos como um todo
Sem qualquer primazia ao coração
Vou te dizer o quanto gosto de tua língua
Sem constranger-te com alguma mágoa
Ou íngua

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Canção de um sapo jururu

Gloss foi feito pra adornar a boca
A boca do cigarro, do trago
Do recital e do pigarro
Mas quando se trata de uma boca feliz
Se abrindo toda
Bem debaixo do nariz
Está bem mais pro apelo que te faço
Vem colar e esfregar seus lábios nos meus
Sem qualquer embaraço
Que vou ficar com os olhos sorrindo
E o mundo trancafiado em segredo bolado
Vai se transformar em um dia de sol
Cheio de janelas se abrindo
Só pra ver se a chuva vai ter coragem de chuver
Tendo coragem, torcer pra que chova bonito
Porque eu digo todas as coisas pelo prazer de ouvir
Coisas , ás vezes, tão tolas
Que nem mesmo eu acredito
Assim faço e acontece a pequena grande diferença
Enquanto eles tentam acertar o discurso
Chamo a atenção para a beleza do percurso
Tudo isso pra dizer
Que mulher não é de se comer
No entanto, se o sentido for
Mais figurado do que pejorativo
Cá estou acenando pra sua fome
Com uma colher
Quero eu comer um homem
Penso apenas
Penso palavras que somem
Quando você chega perto
Perdem o sentido
Errado ou certo

domingo, 7 de outubro de 2007

Umbigo amotinado


Quero chegar bem de leve

Pisando nas pontas dos pés

Desfilando por toda cidade

Que se esconde nas casas do dia de domingo

Somente a solidão das ruas

Poderá acompanhar minha passagem

Tão logo chego e sigo viagem

Não me dê amor

Porque esse não posso carregar

Então não posso ter

Mas convido-te para ir comigo

Que amar é ter dentro de si algo que é de outra pessoa

Se quiser que o tenha

Venha comigo

Acerta quem diz que só posso estar fugindo

Para pegar a estrada no dia de domingo

Quem foge se assusta demais

Quem foge se defende demais

Quem foge deixa tudo pra trás

E se auto-persegue a vida inteira

Em páginas de vida, revista e jornais

Só se fala disso

Um verso que cale, é tudo o que preciso

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Recalque


Sou um labirinto onde me perdi
Por isso saio pelo mundo
Como quem sabe os caminhos
Que na verdade nunca vi
É que para quem está perdido
E não tem a pretenção de se encontrar
Qualquer caminho parece bom para andar
O mundo é mesmo tão bonito
Cheio de coisas e cheio de gente
Mas eu quero tudo do tudo disso tudo
Porque um pouco e em parte nunca me fizeram contente
Querendo tanto é tão difícil
Difícil é o que não deixa desistir
Se tivesse já um tanto de tudo aquilo
Talvez nem estaria mais aqui
Por isso amor, vou te dizer adeus
Não existe mais o que possa me dar dos encantos teus
Vou te presentear com a minha recompensa
E vou te deixar com a certeza de que venceu
Para que não percebas tão logo quando me perdeu
Sentido minha falta ou não
Lá se vai meu coração à procura de outro alguém
Sei que tem quem te dê o pouco que lhe convém
Agora entenda o que eu disse
Ninguém vai te amar como eu
Nem por pretenção e nem por tolice
Acho que isso já percebeu

Em um campo grande corre o vento

Entortando a grama alta

Fazendo-a virar e se revirar de um lado pro outro

Quase que faz enrugar o lago

Desprendendo folhas velhas que, tão teimosas,

Ainda se agarravam aos galhos

Assustando pássaros e outros miúdos animais

Beleza há mesmo na violência de sua violação

Transportando grãos de pólen e poeira

Parece besteira

Mas move morros e leva vida

E quando me vens como a brisa

Que já não tão leve anuncia

A tempestade breve ou o pesado temporal

Viola meus sonhos e torpes ilusões

Violenta as carnes de meu corpo

Disconsiderando a alma que fica dolorida

Mas em mim, comovida demais para perceber

Faz tanto bem quanto faz tanto mal

Que me sinto renascida, mesmo prestes à morrer

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Plano


Se eu te amasse e você me amasse

Seria o começo de uma bela história

Talvez sem clímax e sem glória

Mas a gente viveria querendo que nunca acabasse

Já se eu te amasse e você não me amasse mais

Eu iria torcer pra essa história terminar

Cantando baladas de cachorro louco, correria sempre atrás

Não importando quantos chutes iria levar

Porque quando a gente faz por a gente mesmo,

Sofrer ou não... tanto faz

No caso de você me amar e de eu não te amar

Iria logo, logo embora

Antes do nada e antes do agora

Só pra não ver você chorar, nem se humilhar

E, no revés de tudo isso, veja o que acontece

Eu decidi que te amo, não sei bem como e não sei bem quando

No entanto, você ainda não sabe se me ama ou se me engana

Ou sou eu que ainda não sei

Isso nos coloca no limbo, na pequena inércia que existe dentro da paixão

Posto que essa é uma explosão

Se já saímos voando

Se estamos numa cabana

Todo céu é igualzinho ao mar e ao chão

A loucura maior é ter de reconhecer

Que mesmo assim é bom demais estar com você

Não posso dizer que tenho pressa de isso tudo se acabar

E não posso dizer que não tenho pressa

Então, vamos logo ao ponto que me interessa

Ou vamos só ficar e esperar passar

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A trova do matador


Todo cantor provoca a própria dor
Ele afia a navalha nas cordas de seu violão
Depois enfia no coração e separa a parte
Onde o mal de amar mais arde
Toda canção é um rito, uma celebração
Dessa transição, dessa transformação
Onde todos jogam para fora
O que não estão bem certos de querer mandar embora
Tem gente que não chora
E tem gente que não sabe chorar
De quando em vez, cismo eu de me cortar
Pra ver se consigo acertar o pedaço meu que é seu
Mas sabe o que é?
Acho que sou mais você do que eu
E nessa poderia até me matar
Se quer saber...
Não quero me matar, quero viver contigo
Ao me cortar sangro tudo o que me tem de mais bonito
Vou tentando não escorregar dessa linha tênue
Do constante e eminente perigo
Estou perdendo o medo
Perdendo o freio
Posso não conseguir parar